terça-feira, 20 de abril de 2010

Mahler enterra Eliana

Não sou nenhum fã da música do século XIX. Pelo contrário, tenho certa ojeriza àquela mitologia do compositor romântico: a figura de temperamento instável, introspectiva, sempre disposta a transformar seus dramas privados em música grandiloqüente. A vida e obra do compositor boêmio Gustav Mahler reflete, de certa maneira, essa mitologia. Muitos até o comparam à Proust na sua incansável defesa do isolamento como parteira da grande Arte. Com tudo isso, Mahler ainda está no top five dos meus compositores prediletos. Ele e o dear Ludwig.

Passei este último fim de semana escutando a primeira sinfonia do mestre boêmio na magnífica gravação de Simon Rattle. É um desafio para o ouvinte de Mahler descobrir todas as referências, ironias e sugestões que se ocultam nas suas orquestrações. No caso dessa primeira sinfonia, o mais óbvio intertexto se encontra no terceiro movimento. Quando me deparei pela primeira vez com a melodia lúgubre entoada pelos cellos logo nos primeiros compassos do movimento, minha reação foi inequívoca: "Cacete, por que cargas d'agua o Mahler se apropriou do tema 'os dedinhos' da Eliana? É uma versão fúnebre de os dedinhos!". Decidi ir atrás para saber qual era a do Mahler e descobri que não estava tão equivocado. Trata-se de uma canção infantil francesa popularmente conhecida como Frère Jacques. Bem, eu prefiro chamar de Requiem para Eliana.

A insuportável Eliana e seus insuportáveis dedinhos:




O Requiem para uma apresentadora pé-no-saco:






Deixo pra outra ocasião comentar mais um elemento -- bem menos perceptível -- que encontrei de orelhada nessa belíssima sinfonia do Mahler.

6 comentários:

  1. Em que mundo vivemos? Que mundo é esse que Mahler se aproximou de um tema da Eliana, logo ela, logo ele!

    ResponderExcluir
  2. David,
    Você poderia nos poupar do vídeo da cabeçuda!!
    Já reparou o tamanho da testa desta mulher?? Cabe mais um par de olhos tranquilamente...

    ResponderExcluir
  3. Acho que o pessoal não captou muito bem o quê da coisa, obviamente o tema não é da Eliana, que nem existia quando Mahler compôs a ''Titã''. Gustav tirou o tema do cancioneiro popular ''Frère Jacques''para trnsformá-lo durante este movimento, coisa comum na música dita erudita.
    Nas Variações Goldberg , J.S.Bach faz o mesmo lá pela variação 32 utilizando o tema popular de ''Couves , nabos e repolhos'' , ou coisa que o valha.

    ResponderExcluir
  4. Estes compositores parecem querer demonstrar sua enorme capacidade de improvisação , mesmo , ou principalmente , em temas banais.
    Veja o caso das Variações Diabelli , do grande mestre Ludwig von Beethoven, uma valsinha banal de Anton Diabelli e Beethoven ''tira leite das pedras'' , nas palavras do grande Anderszwski, a quem o nosso blogueiro já teve o privilégio de assistir, AO VIVO!

    ResponderExcluir
  5. E o nosso blogueiro, em tempos de maturidade chegando , adere a música Mahleriana. Com a EXTRAORDINÁRIA memória musical que tem , logo identificou o tema de Frère Jacques, utilizado desde muito tempo nas escolas infantis , e também pela ''prezada'' loura das manhãs das nossas tvs...

    ResponderExcluir
  6. Quando estive com o embaixador da república tcheca, falei do Mahler como se fosse um compositor tcheco. Eles não o consideram tcheco, apesar de ter nascido em uma pequena cidade da Boêmia. O Embaixador me disse: "isso é comum. Muita gente nasce na boêmia, vive em Viena e deixa de ser tcheco. Se tivesse nascido em Praga, como o Dvorak, seria um compositor tcheco".

    ResponderExcluir