quarta-feira, 28 de abril de 2010

A milagrosa mão de Handel

Não é necessário ser nenhum connoisseur em teologia judaica para saber que o paganismo foi um dos mais combatidos inimigos da nação prometida. Quando os israelitas adentraram Canaã, o que ali encontraram foi uma infinidade de tribos que adoravam ao Deus pedra, ao Deus Cacto, ao Sol e a Lua. Adoravam tudo. Chesterton dizia que quando os homens não acreditam em Deus eles passam a acreditar em qualquer coisa. O sacrifício de crianças era, para esses povos politeístas, uma prática comum e corriqueira. Uma conhecida passagem bíblica que ilustra bem essa aversão às praticas pagãs pode ser encontrada quando Deus propôs a Abraão sacrificar o seu filho como prova de sua fé. O patriarca hebreu não hesitou e, quando já estava com a faca voltada para a jugular de Isaac, Deus enviou um anjo para evitar o banho de sangue. O enviado , então, segura com firmeza a mão do patriarca, salvando a vida de Isaac. É justamente essa célebre passagem bíblica que inspirou as belíssimas representações de Caravaggio e Rembrandt em “O Sacrifício de Isaac”.



Correto. Portanto, é líquido e certo que o sacrifício é uma prática absolutamente reprovada no Antigo Testamento? Não é bem assim. O livro bíblico Juízes (11:30-40) nos conta a curiosa história de Jefta, um combatente e líder israelia na guerra contra os amonitas. Jefta promete “entregar a Deus” a primeira pessoa que estivesse saindo de sua casa se retornasse da guerra vencedor. E Israel triunfa sobre Amon. Jefta, ao voltar para casa, se depara com Iphis, sua única filha. Com muito remorso e tristeza, Jefta decide sacrificá-la, cumprindo seu voto com Deus. Sua filha faz o último pedido – vagar dois meses pelas montanhas para lamentar sua virgindade – e Jefta, em gesto de humilde resignação, assassina sua filha. Alguns rabinos ainda tentam salvar as Escrituras alegando algum problema de tradução ou minúcias semânticas na exegese dos textos sagrados. Mas a questão permanece: por que Deus não interveio para salvar Iphis? Onde estava a mesma mão angelical que evitou o sacrifício de Isaac?


Mas se não houve nos relatos bíblicos nenhuma mãozinha para salvar a pobre jugular de Iphis, pelo menos a mão de George Frederich Handel foi hábil e solidária o suficiente para livrar a filha de Jefta do fio da navalha. Já no final da vida e acometido por uma cegueira, Handel compôs seu último oratório, denominado Jefta. Nele, o compositor barroco decidiu intervir na história bíblica de maneira a evitar que Jefta matasse sua filha. Qual foi a solução encontrada? Quando já estava decidido a realizar o sacrifício, o pai é contido por um anjo que o aconselha apenas a obrigá-la a passar o resto da vida virgem. A mão de Handel foi imprescindível para não chocar o público setecentista que já estava habituado com a atmosfera menos “hardcore” do novo testamento. É, alguns poderiam dizer que não há pior sacrifício que passar toda uma vida virgem. Se for assim, maldita foi a mão de Handel.


Um dos momentos mais tocantes do oratório é a ária em que Jefta, antes de ser contido pela mão de Handel, faz um apelo para que os anjos levem sua filha através do profundo azul do firmamento para os braços do Senhor. Na minha tradução o nome da ária seria “Anjos, soprem-na através do céu”.


Waft her, angels, through the skies,

Far above yon azure plain,

Glorious there, like you, to rise,

There, like you, for ever reign.

Waft her...


É uma das mais inspiradas árias de Handel. Música para ser ouvida de joelhos e com um bommm fone de ouvido. Quem assim o fizer, notará que Handel não faz milagres apenas quando salva pescoços de virgens israelistas...




*A gravação do vídeo acima é com o tenor Mark Padmore acompanhado pelo qualificadíssimo English Concert. Das gravações que encontrei, essa foi a que mais me agradou pelo senso de estilo e respeito à chamada “interpretação historicamente informada”. Nesse sentido, o uso controlado do vibrato é uma grande virtude da gravação e dever para os mortais que desejam se aventurar pela música barroca. Aos interessados em ir além, sugiro outra ária (dueto) de Handel, “He shall feed His flock” (Messias), que possui o mesmo caráter pastoril e apaziguador de Waft her, Angel.

(
http://www.youtube.com/watch?v=v9rw3RLv9AY - Com o maior contratenor ever, Adreas Scholl).

2 comentários:

  1. Lindíssimo David!
    Um presente para meus ouvidos à 01:14hs depois de um dia cheio de trabalho e de alegrias!
    Boa noite e muito obrigada!

    ResponderExcluir
  2. Não sei dizer. Isaac foi uma provação. Com a filha de Jefta deveria ter ocorrido a mesma coisa, ou não , vai ver o velhinho desconfiaria que todo mundo iria fazer a mesma coisa esperando a revogação...eheheh...

    ResponderExcluir