sábado, 1 de maio de 2010

O lobo assobia a música do cordeiro

De todas as obras já produzidas para instrumentos de teclado, em todos os tempos e em todos os lugares, as Variações Goldberg é a mais perfeita, profunda e complexa. That’s just my two cents. A fixação que tenho por essa música é tamanha que me levou a adquirir dezenove diferentes gravações dela: da arcaica versão em cravo industrial realizada pela Landowska às recentes leituras para piano da Angela Hewitt; do olhar "de época" de Hantai às interpretações romantizadas de Gavrilov; da revolucionária gravação de Glenn Gould à heterodoxa do jazzista Keith Jarrett.


Quem assistiu ao filme “Silêncio dos Inocentes” identificará ao menos a ária inicial das Variações Goldberg. Sim, aquele enigmático canibal, de astúcia diabólica e sorriso maligno, escutava a serena ária das Variações quando não estava devorando um fêmur aqui ou acolá. Não é só isso, o maligno, frio e racional Dr. Lecter apreciava a contemplativa gravação de Glenn Gould (1981) enquanto desenhava Clarice, a oficial da polícia que estava a sua espreita, segurando com ternura um cordeiro em seus braços.


Não acredito que essas associações sejam meras coincidências e que foram colocadas na cena aleatoriamente. Agnus Dei, o cordeiro de Deus, é parte da simbologia corrente na tradição cristã para se referir a Jesus Cristo. A obra bachiana é, por sua vez, a expressão mais pura e acabada do louvor a Deus através da linguagem musical. Um belzebu que escuta as Variações Goldberg não pode ser outra coisa senão a tentativa de tornar ambígua a figura do capeta, de não transformar o diabo em um personagem linear e previsível. Nunca saberemos se o Mestre, do fundo de sua tumba em Leipzig, aprovou o uso de sua ária para dar requinte à figura do mal. Eu ainda volto pra falar mais sobre essa grande catedral bachiana.



O lendário e excêntrico Glenn Gould na sua gravação de 1981:



Adoração do Cordeiro Místico, de Van Eyck. (divida ela ao meio para notar o quanto esses renascentistas gostavam de simetria).






Ilustração do grande gravurista Gustave Doré para uma edição do livro "O Paraíso Perdido" de John Milton.

7 comentários:

  1. Confesse! Você estudou psiquiatria ou ocultismo?
    Caramba!
    A sua capacidade de abstração é fantástica! E o que é mais legal é que você faz isso de uma forma muito leve!
    Parabéns!!

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  2. hahahaha Valeu, Zuleide! Nem uma coisa nem outra.

    Quanto ao estilo, eu gosto tanto disso tudo que acho uma tremenda tolice tratar a Cultura (C em capslock, claro) com linguagem empolada e cerimoniosa. Encaro a apreciação de Bach, por exemplo, como grande diversão e prazer e não como uma necessidade estéril erudição. E quanto mais estudo o tema, mais prazer e diversão a música me trás.

    Beijos

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  3. Eba! uma postagem mencionando o filme "Silêncio dos Inocêntes" ,aguçou as lembranças de uma fã do personagem "Hanibal lecter" apesar da sequencia "Dragão Vermelho" incluir um lado aposentado do "Dr.canibal", tirando um extra como professor,e em "Hanibal a Origem do Mal", mostrar mais de seus traumas do que sua incrível inteligência e empatia (sem esquecer o lado totalmente sombrio da força, são bons filmes.Me arrisco com um comentário de outro bom folme do genero:" Janela Secreta" baseado na obra de Stephen King "O Cara" em se tratando de terror,tema que adoroooo.Faltou uma boa trilha sonora mas,pra quÊ? Com aquele colorido,caprichando nas cores marrom-avermelhadas e com o toque do diretor Koepp que escreveu o suspense “O Quarto do Pânico”, então me lembrei da 1ª tomada que percorre todo o apartamento da personagem de Jodie Foster, assim como, a tomada de abertura de "Janela Secreta".

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  4. Não conheço, Natalia. Onde o gênero terror conseguiu me agradar foi nos filmes de Hitchcock. Gostei também de 'o bebê de Rosamary' do Polansky e de "o iluminado" do Kubrick. Sempre escutei que um dos poucos livros que ficam melhor cinema que na literatura, são os do S. King. Tenho que confessar que ainda criei coragem para assistir essas adaptações. De qualquer forma, fica a questão: que mal fez João Sebastião pra ser lembrado em fantasmas de óperas e filmes de canibais?

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  5. Paulo Francis fazia questão de frisar , sempre, que Anthony Hopkins era um canastrão. Aqui , em sua memória, gostaria de deixar meu registro.
    Hanibal era um sujeito extremamente refinado e a audição das Variações Gold só vem a confirmar o fato, acho eu. Mais refinado somente se ouvisse outras Variações, as Diabelli...

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  6. Hitchcock era o mestre do suspense , um ''pouco muito'' diferente de terror. Nos filmes de Hitch, quase sempre, já deduzimos o criminoso, importa mais o estudo psicológico do personagem do que a mera questão ''quem é o criminoso?'' de filminhos policiais de segunda categoria.
    Um filhote de Hitch é o gaulês Claude Chabrol cujo ''O Açougueiro''(Le Boucher)foi relançado agora.
    Outro grande exemplo de suspense é , certamente , um dos pioneiros, Crime e Castigo, de Dostoievski, o livro. O assassino ? Sabemos desde o começo praticamente, o que importa é o seu ''estudo'' psicológico.
    Terror é quase sempre coisa barata, exceções são, claro, O Iluminado e o Bebê de Rosemary, além dos ''classicos'' de Vicent Price, trash propositais.Nosferatu , o moderno , me vem à cabeça, além dos filmes expressionistas alemães, mas é preciso muito cuidado com o gênero , escorrega fácil para o banalismo de Hollywood...

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  7. No quadro do ''Cordeiro'', uma das características dos Holandeses, já presente aqui no Renascimento baixo, e magistralmente usado em Vermeer no barroco tardio,o perspectivismo aéreo, recurso usado para ilusão de profundidade. Em Vermeer o recurso é usado como ''luz'' , no magnífico ''Vista de Delft'' , talvez o quadro mais lindo de toda a história da pintura, ou não?

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