quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aquele colosso romano...

Posso dizer que entrei definitivamente para o mundo da música erudita após escutar Cecilia Bartoli. Aconteceu há, mais ou menos, 12 anos, em uma das vezes em que fui ao interior paulista, uma espécie de Beirute do Sertão, visitar um tio -- a quem, diga-se de passagem, devo quase tudo o que aprendi em matéria de música. Ao chegar a sua casa, o encontrei beliscando uns amendoins e escutando uma canção na qual uma mulher executava um ardiloso malabarismo vocal. Tive a impressão que a glote da cantora se contorcia como uma daquelas invertebradas ginastas chinesas, subindo e descendo escalas em uma velocidade meteórica. Não se tratava, contudo, de uma demonstração estéril de virtuosismo. Nas “canções” mais lentas (a palavra ária ainda não existia para mim), sua expressividade e técnica me comoveram de forma tão definitiva que passei a acreditar que todas as cantoras que havia escutado na música popular eram, na melhor das hipóteses, amadoras. Cantar profissionalmente seria cantar como aquela mulher.


Descobri, mais tarde, que aquela mulher era a grande mezzo-soprano Cecilia Bartoli e que o disco que me assombrara era a conhecida coletânea de árias compostas por Vivaldi. Desde então, minha fascinação pela Cecilia Bartoli só cresceu.


Assisti ontem um recente trabalho de Bartoli, a gravação de árias compostas especificamente para castrati. Vejam o que diz uma reportagem sobre o disco publicada pelo Estadão:


"Vamos aos fatos: ela grava, pela primeira vez, 11 árias de compositores italianos desconhecidos, do século 18, escritas para os castrati - cantores castrados ainda meninos, a fim de conservar o timbre angelical de suas vozes; atingindo a idade adulta, uniam duas características impossíveis de se encontrar nas mulheres: tessituras amplas e potência vocal inigualável. Eles dominaram a cena lírica e sacra europeia nos séculos 17 e 18, enquanto perdurou a proibição, pela Igreja Católica, de mulheres cantarem nos templos."


Cabe uma pequena retificação na passagem acima. A proibição não era exclusiva da Igreja Católica. Os cultos na Igreja luterana também proibiam a voz feminina nas músicas sacras. Essa gravação imperdível está disponível tanto em disco quanto em vídeo. Antes de disponibilizá-las, posto a ária que mais me surpreendeu nesse disco. Não conhecia nem o compositor e, tampouco, a ária. Fui me informar e descobri que o autor, Nicola Porpora, é um músico napolitano e dono de uma vasta obra operística. A belíssima ária abaixo é parte da ópera “Germanico in Germania” e aconselho a escutá-la com um bom e bem atarraxado fone de ouvido. Assim será possível apreciar todas as nuances, cores e timbre da voz desse colosso romano. O conjunto que a acompanha, só com instrumentos "de época", é o gabaritadíssimo Il Giardino Armonico.





Isn't it brillant?


Aos interessados em escutar o disco todo (extraído do blog do PQPBACH):


http://rapidshare.com/files/325905542/PQP_ula_ula.rar


Aqueles que quiserem ver a produção em filme (vale a pena!), segue os dois links:


http://rapidshare.com/files/323830336/Cecilia_Bartoli_-_Castratas_-_arte2009.part1.rar


http://rapidshare.com/files/323835382/Cecilia_Bartoli_-_Castratas_-_arte2009.part2.rar



7 comentários:

  1. Cecília é realmente uma pérola e sua gravação das árias do Padre Ruivo é simplesmente imperdível, para quem ainda não conhece.Igarapava , absolutamente, é uma Beirute do Sertão , pelo contrário, é uma fonte inesgotável de cultura...rs...
    O nosso blogueiro parece ter tendências isolacionistas, haja vista que , aparentemente , escolheu um quadro de Hopper para dar a ''cara'' ao Blog.Seriam influências de Bigfields?
    De Cecília mudo totalmente o rumo para E. Hopper. Hopper sempre me impressionou retratando a isolamento humano , mais ainda neste cinturão do meio oeste americano , este estranho país , que nos fascina e ao mesmo tempo nos causa uma certa ojeriza, bastante compreensível.
    Hopper sempre me pareceu estar ''desenhando'' um roteiro de um filme de Antonioni,o outro grande Michelângelo.Além da incomunicabilidade , óbvia, de ambos, a ponto disto já ser dito como um clichê, o quê mais nos impressiona é a dimensão da natureza retratada em contraste com a pequenez humana.É isto, Hopper é o Antonioni da pintura, com seus vastos ''campos'' ou planos ''retratados'',em ambos, o homem chega quase a ser um detalhe.

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  2. Talvez caiba aqui uma explicação mais ampla sobre os Castratis, já que não estamos na comunidade EAB , onde ''as feras'' me execrariam, se eu me metesse a explicações para lá de óbvias.
    A Igreja Cristã proibia,à época,a presença das mulheres em obras musicais. Dava-se então que ficavam faltando vozes femininas , qual sejam , Soprano e Contralto; o Mezzo-Soprano, assim como o Barítono, não era comum no Barroco que utilizava praticamente duas vozes masculinas(Tenor e Baixo) e duas femininas(Sopranos e Contralto). Ora , as vozes femininas eram utilizadas pelos meninos do coro,quase sempre os mais novos Sopranos, e os mais velhos, pré-adolescentes, Contralto. Quando cresciam estes meninos''perdiam'' esta tessitura, de vozes femininas, e daí era lhes ''oferecida'' a possibilidade de serem castrados e permanecerem com estas vozes. Haydn , o famoso compositor , que era um belo Soprano , escapou por pouco , graças a intervençaõ do seu pai.
    Além destas vozes , existia um outra que era uma pérola, o Contratenor!Este é uma voz masculina que na verdade fica entre o Tenor e O Contralto. Distinguir entre um Contralto e um Contratenor, confesso , é uma nuance para poucos ,como nosso amigo Leonardo Perim , lá da comunidade EAB , músico profissional.
    Os Castratis ficavam então como estes Contratenores, ou Altos, dependendo da tessitura de cada um.

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  3. Interessante, porque Cecília não é uma Contralto, mas sim uma Mezzo, cantando um repertório que exige uma voz um pouco mais grave para o repertório.
    Um dos maiores , senão o maior, Contratenores do Séc XX , e responsável pela recuperação destas vozes no repertório operístico deste referido Século, foi Alfred Deller.
    Michael Chance,famoso contra-tenor e fã de Deller, conta nos uma deliciosa história sobre uma mulher francesa que deslumbrada com a voz de Deller teria exclamado: “Monsieur, vous êtes eunuque”—com o qual Deller replicou, “I think you mean ‘unique,’ madam.”

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  4. Grande Barão,

    sempre acertando em cheio. O Hopper não foi uma escolha fortuita. Aqui, no meio-oeste tupiniquim, me sinto muitas vezes um daqueles personagens atomizados representados pelo Hopper. Concordo também com a comparação entre o Hopper e o Antonioni. Aqueles vastos silêncios nos filmes do Antonioni parecem mesmo terem sido desenhados pelo Hopper. Tenho a impressão de que o Hopper adoraria pintar Brasília, com aquelas praças enormes onde as pessoas não trombam umas nas outras.

    Abraços,

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  5. Fala David...aqui é o Gustavo (pelo). Não sou um grande conhecedor, mas passei a gostar do gênero depois que o David me mostrou o DVD da ópera Carmen.

    Tô esperando vc aqui pra gente ir em Paulínia ver alguma coisa! Vem vc tb Barão.

    Aquele abraço!

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