domingo, 2 de maio de 2010

Bach, Anna e o início do affair

À parte a bela e virtuosa ária da cantata BWV 30, o vídeo que posto abaixo só valerá a pena ser assistido se os minguados leitores deste blog conhecerem um pouco da biografia de Bach. Sendo assim, farei uma breve contextualização.


Durante sua vida, o Mestre teve duas mulheres. A primeira, sua prima Maria Bárbara, morreu deixando João Sebastião viúvo por 17 anos. Na Saxônia, conheceu Anna Magdalena, com quem teve a singela quantia de 13 filhos e um casamento muito feliz. É justamente a segunda esposa do Mestre a principal protagonista desta postagem. Relatam os biógrafos que Anna Magdalena era copista e ganhava alguns xelins cantando. Lembremos que no início do século XVIII não existia o milagroso Xerox e, embora Gutemberg já tivesse inventado a moderna forma de imprimir livros, a tecnologia editorial ainda era rudimentar, cabendo, portanto, aos copistas a exaustiva tarefa de transcrever e copiar cada compasso das partituras.


O vídeo mostra Anna Magdalena transcrevendo, com muito esforço e à luz de vela, uma das trocentas partituras de Bach. Ela é, então, abordada por um garoto que lhe mostra a goela infeccionada, alegando estar com dores de garganta. Condoída, observa rapidamente o gogó da pequena criatura e retorna para suas partituras sem perceber que ele estava lhe aplicando uma indireta. Não contente, o garoto ainda força umas tosses artificiais e amarelas para se fazer claro, mas sem qualquer êxito. Então o mini-chucrute decide ir direto ao ponto: “Anna, canta pra mim no solo do ensaio de hoje, por favor!”. Não seria nenhuma aventura atender ao pedido do garoto se as igrejas luteranas aceitassem mulheres no coro. Mas não era o caso. As vozes com registros mais agudos eram cantadas por meninos e, em alguns casos, jovens castrados (castratis). Um parêntese: em pleno século XX, para manter a integridade estética do barroco, maestros mais xiitas, como o Harnonkourt, gravaram Bach apenas com coral masculino.


O garoto e a futura mulher de Bach combinaram, então, que o primeiro ficaria na frente fingindo que está cantando enquanto Anna, escondida atrás dele, executaria o tortuoso solo da cantata. Acredito que, com essas considerações, o resto do vídeo fica compreensível. Faço apenas mais um adendo: a atriz do filme, diferente do garoto, não apenas representa que canta bem. Trata-se de Magdalena Kozenà, a mezzo-soprano tcheca que tem gravado Handel, Bach e Mozart como ninguém. Enjoy!



4 comentários:

  1. Olá David!
    Descobrir com você cada pedacinho da vida de Bach é...meu "Jesus, a alegria dos homens!"
    Se me permite a sugestão, você aceita a idéia de fazer na base de um folhetim, dia a dia toda a história de Bach, como uma linha do tempo, para que nós(simples mortais!) pudéssemos entender e correlacionar com o mundo politico e econômico?
    Eu aceito o seu xingamento...
    Beijos!!

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  2. Poxa, Zuleid, obrigado. A idéia é boa sim. Vou pensar em algum jeito de correlacionar vida, obra e história. Tenho dúvidas se seguir uma linearidade cronológica seria interessante. Talvez partir das master pieces do Bach para levantar elementos biográficos e históricos poderia ser uma alternativa.

    Pretendo, por hora, fazer uma análise em várias partes das Variações Goldberg.

    Agradeço a sugestão. Pensarei com carinho nela.

    Beijos!

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  3. ''Durante sua vida, o Mestre teve duas mulheres. A primeira, sua prima Maria Bárbara, morreu deixando João Sebastião viúvo por 17 anos.''

    Aqui , se o nosso prezado David permite, uma pequena correção, Bach ficou viúvo por 17 MESES, e não 17 ANOS.
    Tarado,como aparentemente era,João Sebastião nuca ficaria sem mulher por 17 anos...
    Brincadeiras à parte , sei claramente que foi apenas uma distração do nosso David, uma das pessoas que mais conhecem ''O Mestre'' neste país. Abração!

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  4. O ''Cidadão Bach'' viveu apenas por 65 anos e teve tempo de produzir mais de 1000 obras , fora o quê se perdeu, e ainda sobrava tempo para ''fazer '' 20 filhos e ajudar a educá-los...

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